“Arco e beca”, por Marina Silva

Rede Sustentabilidade 24 de janeiro de 2014

Meu tio viveu com os índios dos 12 aos 30 anos. Mantinha seus hábitos e, às vezes, passava semanas sozinho na mata. A família se preocupava, mas ele voltava satisfeito. Ajudava a todos com os saberes da floresta e suas plantas medicinais. Parecia prever o futuro, dizia coisas que me impressionavam. E ia compondo em mim a imagem de um desconhecido íntimo: o “índio”.

Nas ruas de Rio Branco, vi índias com filhos no colo, pedindo esmola. Era o drama da nova ocupação da Amazônia, gado, madeira e grandes obras sem cuidados ambientais. O olhar das crianças me mostrava que os índios não eram entidades míticas, mas gente de carne e osso, parte do povo pobre e humilhado.

Depois, com Chico Mendes e outros companheiros, acompanhei a Aliança dos Povos da Floresta e ouvi o discurso forte e diferente dos líderes indígenas. Já aprendera que não eram “índios”, mas caxinauá, axaninca, apurinã, muitos povos diferentes, iguais no desejo de reconhecimento. Em sua fala, vestes e adornos, entrevia outros padrões civilizatórios, valores e visões do mundo.

O “outro” da minha infância me questionou. O que é ser brasileiro? Quem faz parte, quem está excluído, por quê? Podem coexistir diferentes narrativas históricas, ideias de justiça e cidadania?

Ontem, uma foto me alegrou. Era uma formatura de professores indígenas na Universidade do Acre. Não usavam a beca inteira, só a capa nos ombros, sobre as tradicionais vestes coloridas. Chegam ao “nível superior” assimilando outros aprendizados sem abdicar de suas culturas.

Em vários Estados, jovens indígenas estão se formando. No Acre, começaram há 30 anos com um programa da Comissão Pró-Índio. Fundaram escolas nas aldeias e uma associação de professores. Há alguns anos, o governo assumiu o programa e buscou parceria na universidade. Os resultados são excelentes para os índios e para toda a sociedade.

Em muitas aldeias, eles manejam modernas tecnologias para cuidar da terra e planejar o futuro. Há quem diga que, com isso, deixam de ser índios, que “índio de verdade não usa celular nem tem conta em banco”. Muitos repetem esse discurso sem perceber aonde ele leva. O passo seguinte é dizer: eles têm muita terra e o progresso do país precisa delas.

A civilização ocidental vive carente, sentada num tesouro. Elimina os “outros” que lhe são estranhos e desperdiça sua sabedoria. Mas nossa fome não é só de comida, é de um sentido para a vida que vá além do dinheiro e do consumo.

A educação pode ser o diálogo de que necessitamos. Tenho esperança de que, com ela, os brasileiros de todas as etnias superem o sistema de apartação e preconceito.

Minha esperança agora tem diploma. Com a cara pintada e as cores da diversidade.

 

Marina Silva, ex-senadora, foi ministra do Meio Ambiente no governo Lula e candidata ao Planalto em 2010. Escreve todas as sextas-feiras em sua coluna no jornal Folha de São Paulo.